Após sete dias de julgamento e mais de 75 horas de sessões, o Conselho de Sentença decidiu, na noite deste domingo (31), absolver os sete policiais militares acusados de omissão durante a Chacina do Curió, ocorrida entre os dias 11 e 12 de novembro de 2015, na região da Grande Messejana, em Fortaleza.

O julgamento, que aconteceu no Fórum Clóvis Beviláqua, terminou com a revogação de todas as medidas cautelares e restrições de direitos impostas aos réus, que agora podem retornar às atividades nas ruas. A decisão, entretanto, não é definitiva — o Ministério Público do Ceará (MPCE) e a Defensoria Pública do Estado (DPCE) já anunciaram que vão recorrer ao Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE).


Quem são os sete policiais absolvidos

Os agentes julgados neste processo foram acusados de compor o chamado “Núcleo da Omissão” e respondiam por 11 homicídios, três tentativas de homicídio, três casos de tortura física e uma tortura mental. Foram absolvidos:

  • Sargento PM Farlley Diogo de Oliveira
  • Cabo PM Daniel Fernandes da Silva
  • Cabo PM Gildácio Alves da Silva
  • Soldado PM Francisco Fabrício Albuquerque de Sousa
  • Soldado PM Francisco Flávio de Sousa
  • Soldado PM Luís Fernando de Freitas Barroso
  • Soldado PM Renne Diego Marques

A defesa dos policiais foi feita pelos advogados Valmir Medeiros, Carlos Bezerra Neto e Talvane Moura, que atuaram separadamente para os agentes de cada uma das três viaturas envolvidas.


Defesa comemora e fala em “justiça feita”

Com a decisão, os advogados dos réus comemoraram a absolvição por unanimidade. Para Valmir Medeiros, a sentença foi justa:

“Os jurados entenderam que nenhum deles praticou os crimes pelos quais foram acusados. Eles saem de cabeça erguida. Isso, no entanto, não apaga a dor das famílias das vítimas”, afirmou.

Talvane Moura criticou a atuação do Ministério Público, afirmando que os policiais não tinham conhecimento da chacina até o chamado da Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops). Por sua vez, Carlos Bezerra Neto destacou que, com a absolvição, todos os réus voltarão à ativa.


Acusação promete recorrer

O MPCE recebeu a decisão com “serenidade e respeito”, mas adiantou que irá recorrer ao TJCE. A Defensoria Pública, que atuou como assistente de acusação, também deve entrar com recurso para tentar reverter a absolvição.


O que foi a Chacina do Curió

Entre a noite de 11 e a madrugada de 12 de novembro de 2015, 11 pessoas foram assassinadas a tiros em diferentes pontos da Grande Messejana. As investigações apontam que os crimes foram uma retaliação à morte do policial militar Valtenberg Charles Serpa, ocorrida horas antes em um campo de futebol.

Segundo a denúncia do Ministério Público, um grupo de homens encapuzados, supostamente formado por policiais militares, percorreu a região e executou as vítimas. O MPCE afirma que os réus julgados neste processo estavam de serviço e não prestaram socorro às pessoas que pediam ajuda, mesmo com diversas chamadas registradas pela Ciops.


As vítimas da chacina

  • Álef Souza Cavalcante, 17 anos
  • Antônio Alisson Inácio Cardoso, 16 anos
  • Francisco Elenildo Pereira Chagas, 40 anos
  • Jardel Lima dos Santos, 17 anos
  • Jandson Alexandre de Sousa, 19 anos
  • José Gilvan Pinto Barbosa, 41 anos
  • Marcelo da Silva Mendes, 17 anos
  • Patrício João Pinho Leite, 16 anos
  • Pedro Alcântara Barroso do Nascimento Filho, 18 anos
  • Renayson Girão da Silva, 17 anos
  • Valmir Ferreira da Conceição, 37 anos

O histórico dos julgamentos

O Ministério Público denunciou 45 policiais militares pelo caso. Destes, 44 viraram réus, e os processos foram divididos em cinco júris:

  • 1º júri (junho/2023): quatro PMs condenados a 275 anos de prisão cada
  • 2º júri (agosto/2023): oito policiais absolvidos
  • 3º júri (setembro/2023): dois PMs condenados, seis absolvidos
  • 4º júri (agosto/2025): sete PMs absolvidos
  • 5º júri: marcado para 22 de setembro de 2025

Até agora, 19 policiais foram absolvidos e seis foram condenados.


O que vem pela frente

Com o recurso do MPCE e da Defensoria, o caso deve seguir para análise do Tribunal de Justiça do Ceará. Ainda restam outros réus a serem julgados nos próximos meses, e o processo segue como um dos mais emblemáticos da história recente do Ceará.

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