A possível instalação de uma mina de urânio nos municípios de Santa Quitéria e Itatira, no Ceará, ainda está em fase de licenciamento e permanece como pauta de discussões que atravessam décadas. A primeira descoberta de indícios do minério na região ocorreu na década de 1970, quando foram abertas três galerias subterrâneas para prospecção.

As pesquisas foram conduzidas por empresas que dariam origem às Indústrias Nucleares do Brasil (INB), vinculadas ao Governo Federal. Hoje, a estatal integra o Consórcio Santa Quitéria, ao lado da Fosnor Fosfatados do Nordeste S.A., detentora da marca Galvani Fertilizantes. O objetivo é explorar tanto o fosfato — usado na produção de fertilizantes e suplementos para ração animal — quanto o urânio, que serve de matéria-prima para combustível nuclear.

A quinta maior reserva do mundo

Segundo o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) do Projeto Santa Quitéria (PSQ), a jazida de Itataia, localizada na fazenda homônima, é a quinta maior reserva de urânio do mundo. A INB detém os direitos minerários desde os anos 1970, quando adquiriu a área de 4.042 hectares.

O material seria extraído do fosfato por uma rota tecnológica desenvolvida pelo próprio consórcio, já aprovada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). O concentrado de urânio seria enviado em tambores metálicos até o Porto do Pecém, em São Gonçalo do Amarante, de onde seguiria para enriquecimento no exterior. Posteriormente, retornaria ao Brasil para finalização na Fábrica de Combustível Nuclear (FCN), em Resende (RJ).

Galerias permanecem lacradas

O Consórcio afirma que as três galerias abertas nos anos 1990 foram usadas apenas para pesquisa mineral e permanecem lacradas desde então, com exceção de uma breve coleta em 2021. A INB destaca que o local é monitorado e não há risco de acesso indevido.

De acordo com a estatal, os resíduos retirados eram compostos por material sem interesse econômico ou radioativo e foram reinseridos no subsolo. Já o minério de interesse — o colofanito, que concentra fosfato e urânio — foi usado em ensaios tecnológicos.

Licenciamento segue pendente

Apesar dos avanços técnicos, o empreendimento ainda depende de novos estudos exigidos pelo Ibama. O Consórcio tem prazo de até quatro meses para apresentar as informações complementares. A expectativa é obter a licença prévia até o fim de 2025.

Enquanto isso, especialistas e ambientalistas acompanham o processo com cautela. Para o pesquisador Rafael Dias, há preocupação com possíveis impactos sociais e ambientais.

“Em Santa Quitéria ainda não se iniciou a fase de exploração, mas na etapa de sondagem já houve relatos de exposição de trabalhadores e familiares a situações fora das normas de proteção radiológica”, alerta.

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